Esgotamento como virtude, uma armadilha
Como psiquiatra, observo diariamente o esgotamento tornar-se um troféu social, quase uma meta para muitas pessoas. Vivemos numa sociedade que valoriza o trabalho extenuante, e isso é perigoso e possivelmente patológico. A “hustle culture” ou cultura da agitação, em tradução direta para o português, é valorizada por mais da metade dos profissionais, segundo pesquisa realizada pela OMS (2022), o que denuncia a romantização da insônia e de jornadas de trabalho de mais de 12 horas como virtude ou etapa para o sucesso profissional. Redes sociais amplificaram lemas como: “Sem dor, sem ganho”, em um contexto em que pausa e descanso passaram a ser vistos como fraqueza.
Que fica claro, apesar de parecer óbvio, pausas não são luxo; sempre foram e são essenciais para a saúde e para a qualidade contínua do trabalho. Estudos mostram que intervalos de 5 minutos restauram foco em 20% e reduzem cortisol (SMITH, 2016). Sem descanso, o cérebro entra em estresse, o que pode elevar os estados de ansiedade e a quantidade de eventos de falha cognitiva. Nesse contexto, o “ócio criativo”, conceito do sociólogo italiano Domenico de Masi, é revolucionário, pois mostra que momentos de descanso e relaxamento podem mais provavelmente gerar “insights”, entrega de tarefas com mais qualidade, etc. Entre outros muitos casos, destaca-se o do grande cientista Albert Einstein que criou muitas de suas teorias durante tranquilos passeios. Hoje, a maioria de nós ignora essas possibilidades em favor de uma ideia de produtividade frequentemente tóxica.
Por isso, estabelecer momentos de descanso e qualificar o lazer são medidas urgentes e necessárias. Não basta assistir filmes e séries passivamente ou simplesmente dormir o quanto quisermos, pois precisamos criar tradições associadas a momentos de lazer produtivos como caminhadas com amigos, conversas instigantes sobre assuntos variados e celebrações junto a pessoas de que gostamos, isso ajuda a desenvolver habilidades fundamentais para todos os aspectos da vida. Dividir descanso com outros geralmente potencializa seus efeitos, pois partilhar alegrias libera endorfinas coletivas, o que fortalece laços interpessoais e combate a solidão epidêmica que tem assolado a Contemporaneidade (HOLT-LUNSTAD, 2015). Por exemplo, famílias jantando sem celulares ou encontrar amigos em festas criam conexão e resiliência emocional.
Na clínica, pacientes “bem-sucedidos”, socioeconomicamente, revelam comumente seus “fracassos”, que, na verdade, são facetas da humanidade que eles julgavam superada, por exemplo, executivos com pânico por não “renderem”; atletas de fim de semana medindo passadas como se fundamental fosse para todas as dimensões de suas vidas.
Diante disso, é fundamental defender o humanismo, a alegria possível e o encontro transformado em tradição como respostas para este tempo desafiador em que vivemos. Assim, que valorizemos mais o ser no coletivo, do que o fazer individual. Que respeitemos nosso cansaço, que possamos priorizar – quando possível – sono de qualidade, hobbies compartilhados e pausas meditativas. Enfim, vida plena, definitivamente, não é vida exausta.
Referências bibliográficas
- Anxiety and Depression Association of America. (n.d.). Physical Activity Reduces Stress.
- OPPEZZO, M., & SCHWARTZ, D. L. Give Your Ideas Some Legs: The Positive Effect of Walking on Creative Thinking. Journal of Experimental Psychology: Learning, Memory, and Cognition, 2014.
- Harvard Health Publishing. Exercise is an all-natural treatment to fight depression. 2018.
- SMITH, A. Work breaks and productivity. Health Psychology Open, 2016.
- DE MASI, D. O ócio criativo. São Paulo: Sextante, 2000.
- HOLT-LUNSTAD, J. Loneliness and social isolation as risk factors. Perspectives on Psychological Science, v. 10, n. 2, 2015.
- WORLD HEALTH ORGANIZATION. Burn-out an “occupational phenomenon”: international classification of diseases. Geneva: WHO, 2022.



