Ler para existir: a resistência da leitura na era das telas
Viver hoje é conviver com um dilúvio de informações fragmentadas e com menos tempo e atenção para textos que exijam imersão. A leitura, porém, permanece essencial na vida contemporânea como ferramenta de construção de sentido, de resistência ao imediatismo, de desenvolvimento intelectual e emocional e de expansão da experiência humana.
A leitura como resistência ao imediatismo
Em um mundo dominado por algoritmos criados para privilegiar o superficial, o espalhafatoso e o polêmico, ler profundamente é um ato político, pois amplia o vocabulário emocional, fortalece o pensamento analítico e permite habitar outras vidas, tempos e perspectivas. Esse processo estimula a autonomia política, estética e ética, tornando a leitura uma prática de resistência diante da lógica da aceleração e da superficialidade.
Leitura e saúde mental na vida contemporânea
Para a saúde mental, estudos mostram que a leitura regular reduz sintomas de ansiedade e depressão, pois oferece refúgio e reorganização psíquica em meio ao ruído digital e aos desafios típicos da vida contemporânea.
O impacto das telas sobre a atenção e o hábito de leitura
Contudo, a dificuldade de ler afeta especialmente as gerações viciadas em telas, que consomem conteúdos em loops curtos de 15 a 30 segundos, o que diminui a capacidade de sustentar atenção prolongada. No Brasil, o Retrato da Leitura (2023) revela que 52% da população não leu nenhum livro no último ano, com queda de 4% em relação a 2019. Globalmente, o PIPPA (Pew Research, 2022) aponta que 25% dos norte-americanos não leem nenhum livro por ano.
Essa redução decorre não só da disputa por tempo, mas também da fadiga cognitiva causada pela multitarefa digital, que fragmenta a compreensão e diminui a retenção de informação e conhecimento em comparação à leitura em papel, segundo diversos estudos.
Livros físicos, memória e leitura profunda
Em função desse contexto, defensores da leitura em livros físicos argumentam sua superioridade para a compreensão profunda e a retenção de memória, graças ao tato, ao peso e à progressão espacial das páginas, que ancoram o cérebro em um fluxo linear. Estudos neurocientíficos mostram que leitores de e-books recordam menos detalhes e informações do que leem.
Diferentemente das telas, que incentivam zapping e distrações, o livro físico demanda compromisso, promovendo o que a professora e pesquisadora norte-americana Maryanne Wolf chama de “leitura profunda”, essencial para o estímulo à empatia, ao pensamento crítico e à reflexão ética.
Leitura, cidadania e formação crítica
Outros aspectos relevantes incluem a crise da leitura como formadora de cidadania: sem ela, cresce o risco de manipulação por fake news e polarização política. Na educação, a queda no índice de leitura aumenta a evasão escolar e a desigualdade social. Contudo, iniciativas como bibliotecas comunitárias e clubes de leitura podem reverter esse quadro, a fim de resgatar o prazer intrínseco da leitura.
Ler para existir em um mundo cada vez mais digital
Ler, logo, é muito mais do que o ato de decodificar palavras ou imagens, pois é um dos mecanismos mais eficientes e acessíveis de humanização e de desenvolvimento pessoal. Ainda assim, esse hábito tem sido sistematicamente desarticulado, seja por interesses associados a tornar as pessoas mais manipuláveis e dependentes de telas, seja pela conversão do entretenimento em um processo marcado majoritariamente pela superficialidade.
Por isso, articular-se em prol da leitura, seja no campo individual, seja no coletivo, é um ato urgente e imprescindível para a promoção da saúde mental, especialmente à medida que a sociedade se torna cada vez mais influenciada por meios digitais, por sistemas baseados em Inteligência Artificial e por polarizações de qualquer natureza.
Referências bibliográficas
- BRASIL. Instituto Pró-Livro. Retratos da leitura no Brasil 5. 4. ed. São Paulo: IPL, 2023.
- CHARTIER, A. M.; HÉBRARD, J. Discursos sobre a leitura 1880-1980. São Paulo: Ática, 1995.
- MANGUEL, Alberto. Uma história da leitura. 2. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 1997.
- PEW RESEARCH CENTER. Who doesn’t read books in America? Washington, DC: Pew Research Center, 2022.
- WOLF, Maryanne. Reader, come home: the reading brain in a digital world. New York: HarperCollins, 2018.



