Há um tipo de injustiça que não aparece em manchetes: não é a proibição explícita, nem o insulto direto, nem o preconceito declarado. É a forma como uma história é contada. A psiquiatria (como tantas áreas) foi narrada durante muito tempo como uma sequência de “grandes homens” e “grandes ideias”, com mulheres aparecendo como exceções, notas de rodapé, musas, assistentes, pacientes “interessantes” — ou, quando muito, como “boas cuidadoras”. Contudo, essa narrativa é falsa por omissão. E o problema não é apenas moral. É clínico.

Quando uma disciplina apaga as mulheres que a construíram, ela tende a reproduzir, sem perceber, o tipo de olhar que as feriu: o olhar que confunde sofrimento com “temperamento”, angústia com “drama”, luta com “histeria”. Esse olhar, às vezes, medicaliza injustiças; outras, no extremo oposto, romantiza dores e chama de “sensibilidade”. Recontar essa história não é “homenagem”: é justiça.

No consultório, os ecos desse apagamento chegam como expectativa internalizada: de que a mulher “deveria dar conta”, “deveria ser mais calma”, “deveria ser mais grata”. Chegam como culpa, como fadiga moral, como sensação de inadequação permanente. Chegam como um corpo que aprendeu a calar. E chega também como rebelião — às vezes ruidosa, às vezes silenciosa — contra um ideal impossível.

A história da psiquiatria é, em parte, a história de como diferentes sociedades explicaram (e controlaram) aquilo que não sabiam entender, administrar e suportar no humano. E, por razões óbvias, o feminino foi frequentemente um alvo preferencial: o feminino como corpo, sexualidade, maternidade, desejo, recusa, liberdade, raiva, propriedade e tantos outros papeis que oscilaram entre a possibilidade e a imposição.

A questão é: de que lado a psiquiatria escolhe estar quando encontra esse sofrimento? Esse “apagamento” não é acaso: é estrutura. Mulheres produziram conhecimento, método, instituições, técnicas, críticas e reformas. Entretanto, houve mecanismos sociais e acadêmicos que as empurraram para fora do foco por meio de creditação desigual ou inexistente de contribuições de mulheres; barreiras formais para o acesso feminino a universidades, sociedades científicas, chefias e financiamento; trabalho invisibilizado mesmo em campos em que as mulheres são maioria como enfermagem, cuidado comunitário, trabalho social, terapia ocupacional); e a patologização do feminino, quando a própria cultura científica, em certos períodos, tratava a mulher como “mais emocional”, “menos racional”, “menos apta ao pensamento abstrato”, o que é uma violência multifacetada e extremamente nociva.

Na contramão desse processo, diversas mulheres ofereceram contribuições definitas para o avanço da ciência, dos cuidados psicológicos e da Psiquiatria em campos como:

Reformas humanitárias e o nascimento do cuidado como política pública em saúde individual e coletiva – em vários países, mulheres foram decisivas na pressão social por mudanças em asilos e hospitais, por meio da denúncia das condições degradantes e da defesa da ideia radical (para a época) de que pessoas com sofrimento mental não eram lixo social, mas indivíduos merecedores de cuidado com base científica e com empatia. A psiquiatra brasileira Nise da Silveira é uma das pioneiras nessa reflexão e na ação para corrigir essa grave deformação nos cuidados de doentes psiquiátricos.

Mudanças humanistas na abordagem clínica de pacientes psiquiátricos – no século XIX e em grande parte do XX, o padrão de tratamento psiquiátrico partia da premissa que a maioria das pessoas com doenças psiquiátricas eram “incuráveis”, por isso tratados de modo distante ou mesmo desumano. Nesse contexto, destaca-se a psiquiatra alemã Frieda Fromm-Reichmann que insistiu em algo que hoje pode parecer óbvio: a qualidade da relação interpessoal entre profissional de saúde importa, a escuta respeitosa importa, pois o paciente não é apenas um conjunto de sintomas, mas sim uma pessoa em guerra consigo e com o mundo.

Crítica ao viés sexista (patriarcal) das teorias ligadas à saúde mental e ao sofrimento psíquico – é evidente que grande parte da produção científica acerca da saúde mental tem um viés machista, branco e europeu. Uma das primeiras vozes a discutir essa questão sob o viés feminino foi uma médica e psicanalista alemã Karen Horney que criticou veementemente o “inconsciente” do próprio discurso científico, por meio do questionamento de obras que tomavam a experiência masculina como padrão e a feminina como derivação defeituosa, porque, como Horney, sempre afirmava, teoria também tem gênero. Foi também uma das precursoras da Psicologia feminista, que discutia o fato de a saúde mental das mulheres ser diretamente afetada pelas diferenças de poder e de gênero na sociedade.

O trabalho psicanalítico com crianças – esses estudos foram fundamentais para o avanço do pensamento clínico sobre crianças acerca do desenvolvimento infantil, da importância da fantasia na infância, das consequências do trauma para o futuro adulto e da imprescindibilidade do vínculo humano para o crescimento saudável. Melanie Klein e Anna Freud, cada uma a seu modo, abriram uma porta decisiva: olhar a infância não como “miniatura de adulto”, mas como mundo psíquico próprio.

O avanço da enfermagem psiquiátrica e a revisão das leis relativas aos doentes psiquiátricos – esse é um assunto dos mais negligenciados na discussão sobre saúde mental, mas que foi amplamente estudado e discutido pela atuação acadêmica e profissional da enfermeira norte-americana Hildegard Peplau. A partir desses estudos e experiencias, Peplau formulou com rigor a ideia de que o relacionamento terapêutico é parte do tratamento, com fases, papéis e efeitos.

Ainda podem ser destacados nomes como a psiquiatra norte-americana de Judith Herman, que formulou teorias modernas e humanistas sobre as causas e consequências do trauma; como a psicóloga norte-americana Marsha Linehan, que defendeu academicamente e com a sua atuação profissional o rigor no cuidado com a dor extrema, com os cuidados paliativos, por meio de uma abordagem baseada na Terapia Comportamental Dialética (DBT).

Apesar de tantas contribuições, não se pode romantizar, muito ainda há a ser feito por homens e mulheres para que a Psiquiatria livre-se dos seus preconceitos históricos, mesmo porque, houve momentos, em que a psiquiatria serviu para punir aquilo que incomodava: a sexualidade não normativa, a recusa do papel doméstico pelas mulheres, a raiva provocada pela exclusão da vida política e o desejo irrefreável por liberdade. Nesse contexto, até o início do século XX, a “histeria” virou uma espécie de etiqueta cultural para aquilo que a sociedade não queria respeitar em termos dos direitos das mulheres.

A lição aqui é delicada, pois não se trata de demonizar diagnóstico, nem de negar a existência de transtornos reais que acometem mulheres, mas trata-se de sustentar duas ideias ao mesmo tempo:

1. há sofrimento psíquico genuíno que precisa de cuidado médico, às vezes incluindo medicação;

2. há sofrimento social e simbólico que não se resolve com comprimido, e que a medicação, sozinha, pode até encobrir, em vez de resolver.

Assim, pensando em uma psiquiatria mais alinhada com essas questões que reconheço e acredito, defendo e me esforço para praticar uma escuta fica menos moralista e mais humanista e para pensar minha atuação como psiquiatra a partir de uma perspectiva biopsicossocial.

Para mim, psiquiatria não promete “felicidade”. Ela trabalha para reduzir sofrimento, ampliar liberdade interna, melhorar vínculo com a realidade e com os outros. E, sim: amor, amizade, alegria e sonho entram nessa prática, não como poesia vazia, mas como indicadores de saúde psíquica traduzida em capacidade de ligação, de imaginar futuro, de confiar de novo sem ingenuidade, de autonomia emocional e crítica, etc.

Se eu tivesse que resumir, eu diria assim: a psiquiatria fica melhor quando ela reconhece que não nasceu pura. Ela nasceu misturada — com ciência, com moral, com poder, com medo, com cuidado, com instituições e com mercado. A tarefa ética é separar sem romper: usar o melhor da técnica sem repetir o pior da história.

E talvez uma das formas mais concretas de fazer isso seja simples (e difícil): dar nome às mulheres que pensaram, sustentaram e transformaram o campo — e, ao mesmo tempo, aprender com elas o que a psiquiatria às vezes esquece quando se acha “neutra”: que sofrimento humano não é apenas um objeto; é uma relação. E relação exige responsabilidade, tempo, linguagem e presença.

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Mulheres na História da Psiquiatria: o que foi apagado — e o que isso muda no consultório de hoje

Referências

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